
De manhã, a primeira coisa que eu faço ao sentar na frente do computador é escrever de oito a dez coisas que preciso fazer, referentes ao trabalho, Substack, e algo do dia a dia, para aquele dia ou aquela semana. A lista é pequena porque é “filtrada”. Se eu fosse escrever tudo mesmo, seriam mais de cinquenta itens.
Historinha pessoal longa: Aqui no Substack, por exemplo, eu tenho duas publicações em dois idiomas diferentes: um artigo por semana em cada uma, totalizando oito por mês, além de editar os oito para o áudio. Tenho um website pra terminar (estou terminando ele há 9 anos), um aplicativo em andamento (um nativo, desses que vão pra App Store ou pro Google Play pra baixar, não como os web apps que ofereço aqui. O que você acha?), além dos materiais extras que crio pros assinantes. Mas isso não foi o bastante pra mim. A minha sede de conhecimento e o desejo de apoiar quem merece me fizeram colecionar assinaturas pagas, que agora são 32, além de mais de 200 gratuitas, fora as centenas de newsletters que eu apenas sigo.
Aí tem o meu emprego normal, de freelancer editando legendas em inglês pra Netflix, mais uns oito cursos que estou fazendo, seis comunidades privadas com encontros semanais, o cuidar da casa, ficar junto da minha cara-metade, cuidar do Chico 🐾 e tem também lazer, autocuidado, e mais. Tudo tem que caber no dia e na semana de algum jeito. E muito disso consome um tempo imenso e aumenta o estresse, porque, é claro, nunca dá pra fazer tudo.
E não sou chegada em agendas. Espera. Mentira. Adoro agendas, mas não as uso. Tenho mais de dez, pois a cada ano compro umas duas novas, achando que aquela vai ser a que vou usar, mas todas estão só com as primeiras páginas preenchidas.
Então o que tem funcionado pra mim ultimamente é o que comentei lá no começo. Faço a lista, escolho o mais importante (geralmente o que tem prazo) e assim vou indo. O objetivo é terminar pelo menos três ou quatro. Sendo como sou, tenho umas 20 abas abertas em cada navegador do computador, e isso não só me distrai como também me faz ter mais ideias. Mas não sinto culpa por ter feito só metade. Sinto satisfação. Amanhã faço mais três ou quatro e, assim, vou terminando tudo. A lista tende a crescer, claro, mas pra mim isso não é um problema.
Esse sistema funciona pra mim (por enquanto), mas fui ver o que a ciência tem a dizer pra quem vive com a lista sempre cheia, e achei três coisas que dá pra somar sem comprar mais uma agenda.
Primeiro passo: despejar a lista antes de dormir
Michael Scullin, da Universidade de Baylor, e colegas publicaram em 2018, no Journal of Experimental Psychology: General, um estudo com 57 estudantes no laboratório de sono. Antes de dormir, uma parte do grupo escreveu, durante cinco minutos, o que precisava fazer nos próximos dias, e a outra parte escreveu o que já tinha feito. Quem escreveu a lista do que iria fazer adormeceu mais rápido. Segundo a divulgação da universidade, quanto mais específica a lista, mais rápido o sono chegou1.
Foi uma noite, em laboratório, com estudantes, então vale como pista e não como promessa.
Se quiser testar, escreva à noite, em cinco minutos, o que precisa fazer nos próximos dias, usando uma frase específica para cada item. Escreva “ligar pro dentista de manhã” em vez de “dentista”; “escrever artigo sobre fazer listas e caminhar pro VLF", em vez de “escrever artigo". Qualquer papel serve, inclusive aquela agenda meio usada. Como eu faço a minha lista de manhã, essa da noite vai ser um experimento novo pra mim.
Segundo passo: andar para ampliar as opções
Alguém com o dia cheio de tarefas sai pra caminhar? Faz sentido desconfiar. Mas, depois da etapa anterior, a lista já está no papel, e aí a caminhada ganha outra função.
Marily Oppezzo e Daniel Schwartz, da Universidade de Stanford, publicaram, em 2014, uma série de experimentos e observaram que caminhar melhorou a criatividade em tarefas de geração de ideias, com um efeito que perdurou um pouco após a pessoa voltar a se sentar. Em um deles, a produção criativa subiu, em média, 60% ao caminhar, em comparação com quem estava sentado. Nas tarefas que pedem uma única resposta correta, caminhar não ajudou muito2.
Dois dos experimentos
Teste da esteira: Os participantes andaram na esteira, olhando para uma parede branca e vazia, e, mesmo assim, a criatividade deles aumentou em 60%.
Teste da cadeira de rodas: Os participantes que foram passear pelo campus em cadeiras de rodas não tiveram o mesmo ganho de ideias que os que fizeram o trajeto a pé.
Note que o segredo para destravar a mente não foi apenas sair do lugar. Foi o caminhar que fez a diferença, embora a paisagem também possa somar. Ainda bem que eu tenho o Chico, que três vezes por dia me tira da frente do computador.
Na prática: andar quando o trabalho é gerar opções, ou seja, planejar, ter ideias (pensamento divergente) e sentar quando o trabalho é decidir, escolher uma resposta única (pensamento focado ou convergente).
Pra quem quer experimentar:
- Saia por 10 a 20 minutos, sem fone, com essa pergunta na cabeça: “Essa tarefa que mais trava, posso simplificá-la ou fazê-la de outro jeito?”
- Leve um caderninho e caneta ou lápis no bolso, ou o celular só pra anotar.
- Se tiver um percurso com árvores, melhor.
Os pesquisadores Gregory Bratman e colegas da Stanford compararam, em 2015, uma caminhada de 90 minutos na natureza a outra caminhada na rua. A caminhada na natureza diminuiu a ruminação, que é aquele pensamento que fica rodando na sua cabeça, mas a da rua, não3. Você não precisa andar por 90 minutos, mas o percurso é importante.
Quem pensava andando não era exceção. Darwin caminhava duas vezes por dia na Sandwalk, uma trilha de pedra e areia de aproximadamente 400 metros, ao lado da casa dele, durante quase quarenta anos4. Segundo as biografias, ele deixava um montinho de pedrinhas numa curva e chutava uma a cada volta, pra contar as voltas sem perder o fio do pensamento. (O detalhe das pedrinhas vem da biografia de Janet Browne, e os relatos variam sobre se eram pedras ou sílex.)
Beethoven saía com caderninhos de esboços no bolso. A exposição do museu Beethoven-Haus, em Bonn, lembra que os cadernos serviam pra captar e organizar ideias. O caderninho dele é parecido com o que eu sugiro pra você, só que sem as sinfonias. A não ser que essa seja a sua área, claro!
Somente os pensamentos que nos ocorrem ao caminharmos têm valor.
Nietzsche, Crepúsculo dos ídolos, “Máximas e flechas”, §34.
Nietzsche nunca foi conhecido pela moderação, mas aqui ele tem a ciência ao lado dele, pelo menos na parte de gerar ideias.
Terceiro passo: sentar para decidir e fechar
Essa parte eu já faço. Escolho o que é mais importante, deixo quase metade de lado, e isso já me deixa em paz.
O que a ciência acrescenta é uma regra pro corpo, enquanto a cabeça decide. Em 2012, David Dunstan e colegas do Baker Heart and Diabetes Institute, na Austrália, testaram 19 adultos com sobrepeso, com idades entre 45 e 65 anos. Quando eles interrompiam o tempo sentado com dois minutos de caminhada leve a cada 20 minutos, a resposta de glicose e insulina após uma bebida de teste foi menor do que quando ficavam apenas sentados5.
E uma revisão de 2022, de Aidan Buffey e colegas, reuniu sete estudos e observou o mesmo padrão, com a caminhada leve ajudando mais do que ficar em pé.
São estudos curtos, com pouca gente, mas dá pra tirar bons sinais deles: uma pausa de dois a cinco minutos, em pé ou andando, a cada 20 ou 30 minutos de trabalho sentado. Cabe até quando uma aba nova semear uma ideia nova, e se ela aparecer enquanto você decide, vai pro fim da lista. A lista cresce, e tudo bem. Falei mais sobre isso em “A cadeira desfaz o treino?”, que está logo abaixo.
Se quiser experimentar, comece hoje: cinco minutos, um papel e uma lista específica. Amanhã, caminhe com aquela pergunta. Quando sentar, faça o que der. Metade já é um bom dia.
A lista do papel dá pra ver. Mas existe outra: uma que a gente carrega na cabeça e que ninguém vê. É dela que eu vou falar na parte 2, no dia 1º de novembro. Tem até um exercício de quinze minutos pra aliviar um pouco desse peso.

Três artigos meus que falam um pouco mais sobre esses assuntos:
Eu perdi o primeiro prazo desde que comecei a publicar, com abas demais abertas na cabeça. Conto por que trocar de tarefa cansa tanto e três coisas que estou testando pra dar conta delas.
Falo da regra dos 70% e de por que eu não sigo o manual à risca nem rotinas extremas. Dá pra cuidar da saúde sem culpa.
Participei de um estudo de 30 dias com 10 mil passos por dia e descobri por que treinar de manhã não compensa passar o resto do dia sentada. E tem dicas simples pra você se mexer mais.

Você passa 6 a 8 horas sentado por dia?

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