Na semana passada foi o meu aniversário. Tirei o dia de folga, fiz uma comidinha especial e curti uma tarde tranquila com quem amo. Mas esse dia sempre me faz pensar nas coisas que a gente acha que precisa fazer para viver mais e melhor, e também no exagero que pode existir em torno de tudo isso. Eu penso nisso o tempo todo mesmo, já que passo boa parte dos meus dias escrevendo sobre o assunto.
Nas redes sociais, há sempre alguém acordando às 4h30, tomando banho gelado e seguindo dezenas de rituais com muita energia e consistência, e contando tudo nos mínimos detalhes. Às vezes me pergunto se aquilo é um retrato fiel da vida delas ou apenas um retrato fiel do algoritmo.
Eu sou biohacker desde 2009, mas nunca fui muito boa em seguir o manual. Sim, eu faço vários testes e participo de estudos regularmente, porque quero aprender mais sobre o meu corpo e ajudar a ciência. Testes de sangue, de idade biológica, de NAD, de DNA, de metabolômica, entre outros.
Talvez você se surpreenda, mas, como alguns dos meus amigos biohackers, eu tenho vários gadgets em casa que uso muito menos do que imaginei que usaria. O único ao qual continuo fiel há oito anos é o Oura Ring. E os resultados dos testes que faço e dos gadgets que eu uso vêm com recomendações, mas como eu sou meio cética, sigo só as que fazem sentido para mim e ignoro as outras, sem culpa.
Quando eu faço todos esses testes, faço com ou sem suplementos, rotinas ou comidas especiais. Como se eu estivesse testando os testes. E, curiosamente, os resultados são sempre muito bons.
Não acordo antes das 6h, tomo banho frio só no verão, e a banheira com gelo só acontece umas poucas vezes por ano. Passo meses sem tomar nenhum suplemento (isso aconteceu agora, de março a maio). E de junho a setembro, vou tomar muitos por causa de alguns testes que farei.
Fico semanas fazendo um programa de exercícios específico e, depois, passo várias semanas só com caminhadas diárias. Graças ao Chico, que resolve essa parte por mim.
Eu não como nada de que não gosto só porque alguém disse que aquilo é uma superfood. Também não deixo de comer fora por medo de não resistir à cesta de pães (e não resisto mesmo) ou por receio de que o restaurante use um óleo suspeito na fritura.
Sou uma biohacker imperfeita. E tudo bem.
Admiro as pessoas que conseguem seguir protocolos e rotinas rigorosos, mas não as invejo nem me comparo a elas.
Já vi gente gastar fortunas em protocolos, medindo cada hora de sono, cada pico de glicose, cada minuto na zona 2, tentando negociar com o envelhecimento como se o corpo fosse uma planilha obediente. Ao mesmo tempo, conheço pessoas bem menos obcecadas que apresentam resultados excelentes em testes biológicos. Esse contraste sempre me chamou a atenção.
Se você se estressar toda vez que não dormir bem ou que aquele teste mostrar um resultado que não esperava, lá se foram os benefícios daquela meditação de uma hora que você aprendeu com aquele ex-monge famoso.
O Bryan Johnson1 mede o próprio sono, o movimento e tudo o que come e bebe. Dorme às 8h30 da noite, acorda às 5h, e come a última refeição do dia às 11 da manhã. E ele ingere apenas o que os testes e a equipe dizem que ele pode e deve ingerir. E isso raramente vai ser uma fatia de bolo com a família, um churrasco regado à cerveja com os amigos, um jantar num restaurante com um cineminha depois.
Ele fez essa escolha de forma consciente. Mas o que fica fora da planilha dele, e da planilha de muitos outros que seguem esse caminho, é o que muita gente chama de vida.
Qual a graça de viver até os 120 anos, mesmo com saúde, se falta aquela conexão social, aquela espontaneidade de fazer o que se quer, mesmo que não seja a escolha mais saudável?
Comer algo gostoso sem cerimônia, ficar sem dormir por ter ido a uma festa, passar dias sem se exercitar, não ter paranoia de que tudo é veneno, e jamais sentir culpa por isso.
A ideia que ficou comigo ao longo dos anos é que, se você fizer talvez uns 70% das coisas certas na maior parte do tempo, tudo bem fazer uns 30% das coisas consideradas não saudáveis.
Na minha experiência, isso é muito mais sustentável do que qualquer protocolo rígido. Suplementos, gadgets e testes podem ajudar. As coisas mais importantes que aprendi sobre a longevidade estão em outro lugar. É cultivar relações, gostar da própria vida, sem esperar que ela seja perfeita, e chegar ao próximo aniversário com a sensação de que valeu a pena.
Meus avós e meus pais não chegaram aos 90 anos (faleceram entre os 77 e os 88), o que sugere que a longevidade excepcional não parece ser o traço genético mais evidente da minha família.
Por isso, serão as minhas escolhas, repetidas de forma imperfeita ao longo do tempo, que me farão chegar aonde eu puder, saudável e feliz.
No dia 24 de maio, completei 58 anos e, em março, o teste TruAge do TruDiagnostic indicou que minha idade biológica era de 39 anos.
E o meu DunedinPACE foi 0,78, o que significa que meu corpo está envelhecendo mais devagar do que a média: cerca de 9 meses e meio a cada 12 meses do calendário.

Tenho quase certeza de que grande parte disso é porque eu nunca me senti obrigada a ser perfeita.
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Clique aqui se quiser saber mais sobre os protocolos do Bryan Johnson (em inglês)
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Oi. Meu nome é Claire. Eu escrevo sobre saúde, longevidade e biohacking, e aqui tento traduzir assuntos que às vezes são bem complexos para uma linguagem mais simples e útil pro seu dia a dia.







Adorei! Sou da turma do equilíbrio então não curto as regras rígidas demais! Parabéns atrasado!
Maravilhoso!!!! Olha o trecho do texto que escrevi para o email semanas que mando para minhas clientes: otimizar sono, glicose, treino, composição corporal, cortisol, HRV, passos, proteína, sol da manhã, zona 2, musculação, intestino, ciclo, suplemento, meditação, exposição ao frio etc - tudo isso deveria estar à serviço da vida, não a vida à serviço disso tudo, né?
Me identifiquei demais com seu texto e também sou uma biohacker imperfeita e muitas vezes traidora do movimento wellness ahahaha