Eu sempre publico meus artigos aqui no Substack nos dias 1 e 15 de cada mês.1 Tenho feito isso desde maio de 2025, em três publicações, e nunca tinha perdido um prazo. Mas ontem isso aconteceu. E eu sabia que um dia ia acontecer.
Eu faço parte daquele grupo que diz: “minha mente é igual a um navegador de internet: tem 30 abas abertas, três estão travando e eu não faço ideia de onde vem a música”. É até engraçado quando a gente lê. Nem tanto quando a gente se dá conta de que isso não é nada útil.
Essa sensação de ter várias ideias em andamento ao mesmo tempo, sem conseguir focar 100% em nenhuma delas, pode levar a um tipo de cansaço que não aparece na balança nem no relógio. Você termina o dia sem energia nenhuma e, mesmo assim, sem nada pronto pra mostrar.
E essa semana eu trabalhei no que faço há muitos anos, que é editar legendas em inglês para a Netflix, além de escrever artigos como esse aqui, o que significa escolher os assuntos, pesquisar, refinar, editar, revisar várias vezes (sim, sou dessa turma também), escolher os títulos, as imagens internas, as imagens das capas e fazer as versões pro áudio no ElevenLabs. Isso tudo leva vários dias. Aí entra uma ida ao dentista, ao mercado, e tudo o mais que fazemos no dia a dia, e quando vi, já era dia 14 e os artigos não estavam prontos.
E me dei conta de que havia abas abertas com projetos novos que não tinham nada a ver com o que acabei de citar. Web apps, ideias para vídeos, PDFs, protocolos e artigos futuros. Tudo pela metade.
Quando eu comecei a olhar pra isso como um problema de processamento, e não de disciplina, tudo começou a fazer mais sentido.
O seu cérebro é um computador com processos demais abertos
Um computador travando com vinte abas abertas não é preguiçoso. Ele só está fazendo o que dá pra fazer com os recursos que tem.
Em ciência da computação existe um nome pra isso: context switching. É o processo pelo qual o processador guarda o estado de uma tarefa (tudo o que estava calculando, tudo o que ainda faltava), larga aquilo de lado, carrega o estado de outra tarefa do zero, e só então troca. Cada uma dessas trocas consome tempo e energia de verdade, mesmo quando parece instantâneo pra quem está usando a máquina.
Um estudo do Software Engineering Institute, da Carnegie Mellon, analisou pessoas que lidavam com cinco projetos simultâneos e encontrou um número que eu não consegui esquecer. Só 20% da energia ia pro trabalho de fato. Os outros 80% se perdiam na própria transição entre uma tarefa e outra, no processo de guardar e recarregar.
O gargalo real está em quantas dessas ideias tentam rodar ao mesmo tempo, disputando o único processador que você tem.2
O preço de “só dar uma espiadinha”
Gloria Mark, professora de informática na University of California, Irvine, passou mais de duas décadas observando gente de verdade trabalhando, não processadores. No livro Attention Span (2023), ela reúne todo esse acervo de pesquisa e chega a números difíceis de ignorar: hoje, o tempo médio que alguém passa numa única tela antes de mudar de foco é de 47 segundos. E, depois de uma interrupção, leva, em média, 25 minutos até a atenção voltar de verdade pro que estava sendo feito antes.3
Vinte e cinco minutos. Pra cada vez que você troca de aba, literal ou mentalmente.
Tem outra pesquisadora que ajuda a explicar por que esse retorno demora tanto. Sophie Leroy, hoje na Universidade de Washington, descreveu em 2009 um fenômeno que ela chamou de resíduo de atenção: quando você troca de tarefa antes de terminar a anterior, uma parte da sua atenção continua presa nela, mesmo que você já esteja fazendo outra coisa. O cérebro não solta de graça uma tarefa inacabada.
Isso explica uma coisa que eu demorei anos pra entender sobre mim mesma. Mesmo fazendo tanta coisa quanto eu faço, uma fatia enorme desse esforço se perde só na troca entre uma tarefa e outra. Sobra pouco tempo parado numa coisa só pra ela sair do lugar de verdade.
Por que você trava, mesmo fazendo tanta coisa
Tem um nome para aquela sensação de congelar diante de tarefas demais, sem conseguir nem começar. Chama-se task paralysis, e psicólogos a descrevem como parecida com uma resposta de luta ou fuga, não como procrastinação comum.
Procrastinação é adiar. Task paralysis é travar de verdade, o corpo inteiro parado na frente da própria lista. A diferença importa, porque a segunda não responde bem à força de vontade. Você pode querer muito começar e, mesmo assim, não conseguir.4
E tem uma razão bem específica pra ideia nova ser sempre mais sedutora do que a que já está pela metade. Chama-se shiny object syndrome, e o mecanismo é simples: cada ideia nova entrega um pico de estímulo maior do que continuar algo que já perdeu a novidade. Quando o seu estoque de ideias é maior do que o tempo que você tem pra executar todas, esse pico vence quase sempre, e a tarefa antiga fica ali, pela metade, esperando.5
Às vezes, eu sou vítima da síndrome do objeto brilhante. Pulo de uma ideia para outra, e acho que o próximo web app vai ser melhor, aquele outro gadget ou curso vai me ajudar ou me dar mais feedback, ou o que for que não experimentei ainda vai ser a oitava maravilha do mundo.
Sem falar do FOMO, o fear of missing out. A pessoa tem medo de ficar de fora de algo, e acaba consumindo coisas demais, sejam objetos, cursos, passeios, e assim vai. Por essas e outras, acabei com dezenas de cursos inacabados e mais de 30 assinaturas pagas no Substack (e 200 gratuitas). E como cada newsletter publica algo novo a cada semana, eu me afogo em informações e não consigo dar conta de tudo, o que também me causa um pouco de ansiedade.
Mas tem algo interessante nisso tudo. Eu gosto de ter a minha mente sempre ocupada. Isso me faz feliz, me faz sentir viva e alerta. Sei que há pessoas que só fazem uma coisa de cada vez, têm os projetos organizadinhos na agenda, entram naquele flow e conseguem terminar tudo o que começam. Que bom pra elas.
Eu também entro no flow state quando estou trabalhando em algo que gosto. Fico seis horas grudada no computador e até esqueço de tomar água. Mas esses momentos são meio raros, e geralmente eu pulo, sim, de um projeto para o outro. De propósito.
Aliás, tem gente que dá um nome bem menos clínico pra esse traço. A escritora canadense Emilie Wapnick, autora do termo multipotencialista, descreve pessoas com múltiplos interesses simultâneos como alguém cujo cérebro é feito pra explorar, conectar ideias diferentes e se adaptar rápido. A vantagem real desse perfil, segundo ela, está numa espécie de inteligência de conexão, a facilidade de enxergar pontes entre áreas que quem foca numa coisa raramente chega a ver.
Três coisas que estou testando
Antes de ir direto pro que eu realmente faço, vale explicar uma ideia que virou padrão entre criadores de conteúdo que lidam com esse problema: o método parking lot (estacionamento). A lógica é que toda ideia nova que aparecer no meio de um projeto em andamento ganhe um lugar fixo pra pousar: uma lista, um caderno, um quadro, o que for, com hora marcada pra ser revisitada depois. A ideia não é descartada, só sai da fila de agora.
Confesso que, na prática, o que eu realmente faço não é essa lista de espera organizada. Eu adio. A ideia nova não desaparece, só vai pra “depois”. Só que “depois” quase sempre significa a mesma aba aberta no navegador, ou a mesma página do caderno, ainda ativa, ainda pedindo atenção. Não é uma sala de espera organizada. Parece mais uma sala lotada onde ninguém é chamado.
Então, em vez de fingir que tenho isso resolvido, separei três coisas que a pesquisa sugere, e que estou testando aos poucos.
Um limite de tarefas ativas. No mundo do desenvolvimento de software existe o WIP limit, usado em quadros Kanban: você define um número máximo de tarefas em andamento ao mesmo tempo, geralmente entre duas e quatro, e só deixa uma nova entrar quando outra sai ou termina. Aplicado à vida real, é dar ao seu processador uma quantidade de processos que ele realmente consegue rodar, em vez de vinte abas competindo pela mesma memória.
Um bilhete de você pra você, antes de trocar de tarefa. Voltando à pesquisa de Sophie Leroy sobre resíduo de atenção: uma das formas de soltar uma tarefa inacabada é deixar registrado, por escrito, exatamente onde você parou antes de mudar de assunto. Não precisa ser elaborado. Uma frase solta, tipo “parei aqui, o próximo passo é X”, já ajuda o cérebro a largar aquilo de verdade, em vez de carregar o resíduo pra tarefa seguinte.
Um horário marcado pra revisar a lista de espera. Ter um dia certo, uma vez por semana, pra olhar de novo tudo o que ficou parado tira boa parte da urgência de largar tudo assim que uma ideia nova aparece. Você sabe que ela vai voltar pra roda numa data marcada, e isso já é suficiente pro cérebro relaxar um pouco daquele alarme de “agora ou nunca”.
No fundo, isso tudo é uma versão mais séria do método parking lot que citei lá em cima: separar um espaço fixo pra pousar as ideias novas, com hora marcada pra buscar elas depois. A diferença é que, dessa vez, não fica só na promessa. Fica no calendário.
O problema nunca foi a quantidade de ideias, e sim a falta de um limite claro sobre quantas podem rodar ao mesmo tempo.
Já estou empolgada pra testar essas três técnicas. Cada pessoa é diferente, então não sei o que vai funcionar melhor pra você. E ser a melhor versão de mim mesma é o motivo pelo qual me tornei biohacker, e mostrar a você como se tornar mais feliz e saudável é o motivo pelo qual comecei essa publicação. Essa é mais uma ferramenta para o nosso arsenal, e devagar vamos testando, descartando, e aplicando o que funciona.
A partir de agosto de 2026, eles sairão nos dias 8 e 22.





