Na semana passada foi Dia das Mães, e isso me inspirou a escrever sobre algo que vi há duas semanas na beira do riacho que passa aqui em casa. Era de manhã, e eu estava passeando com o Chico, meu chihuahua-pinscher que percebe tudo antes de mim, quando ele notou uma tartaruga cavando o chão com as patas traseiras. Parei, fiquei intrigada com aquilo, tirei duas fotos e segui em frente.
Em casa, fui correndo pesquisar, claro. Descobri que provavelmente era uma Eastern Painted Turtle, e que aquele buraco fazia parte de algo muito maior: ela estava preparando o lugar onde colocaria seus ovos. Depois de cobri-los, voltaria para a água sem olhar para trás.
Em dois ou três meses, os filhotes vão nascer sozinhos, caminharão com as perninhas curtas alguns metros sobre a terra, com alguns obstáculos pelo caminho, e chegarão até a água. Sem mãe. Sem guia. A mãe, aliás, talvez nunca saiba quem são seus filhos. Independência total dos dois lados.
Aprendi também que há outros animais que deixam os filhotes por conta própria. As mães põem os ovos em algum lugar e seguem o próprio caminho.[1]
Bom, compramos uma câmera e a colocamos numa árvore perto do local. Quero ver o momento em que os filhotes saem dos ovos e caminham pra água.


Eu não tenho filhos, mas tenho instinto maternal, e aprender aquilo me atingiu de um jeito meio inesperado. Tentei imaginar o que seria deixar alguém que você ama partir assim, completamente, sem querer guiar cada passo. Mas é exatamente essa soltura que garante a sobrevivência da espécie. É necessário.
E isso me fez refletir sobre como nós, seres humanos, lidamos com a ideia de independência e separação, especialmente no contexto da maternidade e da criação. A sensação foi mista: eu fiquei admirada pela confiança no processo natural, e também me questionei sobre as noções de apego que carregamos. A cada escavação daquelas patinhas, a mãe-tartaruga cavava o caminho para o desconhecido que os seus filhotes enfrentariam.
No mundo humano, a conexão mãe-filho é amplamente cultivada e nutrida. Os pais investem anos, às vezes décadas, em cuidados, instruções e proximidade emocional. Essa proximidade parece essencial para o nosso bem-estar e é uma relação simbiótica cheia de complexidade.
E ainda assim, ali estava aquele animalzinho com um protocolo completamente diferente, talvez bem mais antigo, baseado na ideia de uma independência imediata e irrestrita. Percebi que, para ela, a autonomia não precisa desabrochar sob supervisão. Existe desde o primeiro instante.
Quando mergulhei mais na biologia, encontrei algo que deixou meus olhinhos de biohacker nerd brilhando. A temperatura do solo onde os ovos são enterrados determina o sexo dos filhotes: temperaturas mais altas produzem mais fêmeas, temperaturas mais baixas produzem mais machos.
O Dr. Fredric Janzen, da Iowa State University, estuda esse fenômeno há décadas. Os filhotes nascem com uma reserva de gema que os sustenta nos primeiros dias e, no momento em que rompem a casca, ativam sistemas completos de sobrevivência: termorregulação, navegação pelo campo magnético da Terra e homeostase metabólica. Tudo pronto desde o primeiro segundo, sem aprendizado, sem modelo a seguir.
Em humanos, algo parecido acontece, e há um nome para isso: hormese. Já escrevi sobre esse conceito aqui na newsletter, em duas partes: hormese - a teoria e hormese - a prática.
O Dr. Mark Mattson, do National Institute on Aging, passou décadas documentando como os sistemas biológicos humanos se tornam mais robustos quando expostos a desafios moderados, e não quando são protegidos deles. O sistema imunológico de um bebê precisa de exposição a bactérias para aprender a se regular.
O eixo HPA (hipotálamo-pituitária-adrenal), que governa a nossa resposta ao estresse, desenvolve a resiliência por meio do contato com a adversidade, e não pela ausência dela. Proteger demais, paradoxalmente, fragiliza. A natureza chegou lá muito antes de nós.
A natureza codifica essa homeostase em cada ciclo, com uma precisão que a gente demora pra reconhecer. E isso traz uma pergunta: o quanto do que chamamos de “suporte necessário” é mesmo necessário, e quanto é, na prática, uma subestimação da capacidade adaptativa de quem amamos?
Para nós, a sensação de garantir um próximo passo seguro, de firmar laços antes de abrir as asas, parece mais do que uma virtude. Mas a tartaruga deixa ir porque, no seu design biológico, já existe a confiança no processo. Ela não questiona esse instinto; só o segue.
O ciclo dela continua, com ou sem testemunhas. E os filhotes vão caminhar esses três ou quatro metros em algum momento dos próximos meses, enquanto eu talvez esteja vendo tudo pela câmera que instalei na árvore. Sem aplausos e sem ninguém torcendo ao lado (bom, eu estarei torcendo, se tiver a sorte de presenciar o acontecimento). E mesmo assim, eles chegam até a água.
Eu fico pensando nisso.
[1] https://www.peritoanimal.com.br/animais-que-nao-cuidam-dos-filhotes-24474.html




Você e suas maravilhosas reflexões. Depois de ler, fiquei com a mesma cara que fico no final dos episódios do Black Mirror. Pensando aqui se vou saber quando chegar o "momento de deixar ir" ou se esse momento já vai sendo preparado desde o nascimento, quando deixamos o bebê ter algumas frustrações... E ninguém tem a resposta. Por que as tartarugas sabem e nós não?
🐢🐢🐢🐢🐢 quero ver as tartaruguinhas!!!