Comecei a assistir ao reboot de Uma Casa na Pradaria. No Brasil, a série ganhou esse novo nome. Quem cresceu nos anos 80 talvez lembre dela como Os Pioneiros, a versão de 1974, ainda disponível no streaming1.
Tem uma coisa que eu percebi quando fui pesquisar pra escrever esse artigo. Aquela história inteira nasceu só de memória, sem nenhum registro. Os livros que deram origem à série foram escritos pela própria Laura Ingalls Wilder décadas depois dos fatos, já adulta, contando a própria infância na pradaria, começando em 1869, inteiramente de cabeça, sem nenhuma fotografia ou livro pra ajudar.
Nos primeiros minutos da nova versão, a Laura, a filha mais nova (naquele momento da história), conta que a família está deixando tudo pra trás e indo pra um lugar desconhecido, mas que estavam todos felizes pois estavam juntos. São cenas bonitas, vistas e lembradas por uma criança que tenta entender o tamanho do que está acontecendo enquanto a paisagem muda pela janela de trás.
Não existe nenhuma câmera nessas cenas, nem em nenhuma outra da série inteira. Naquela época não havia celular nem nuvem, e a única forma de guardar alguma coisa era a própria cabeça. A família inteira atravessa nascimentos, perdas, invernos difíceis e pequenas conquistas e aventuras ao longo da vida. E a única coisa que sobrou de tudo isso, décadas depois, foi o que a Laura Ingalls Wilder lembrou e botou no papel.
E assim foi com a vida dos nossos antepassados, dos nossos tataravós e bisavós. Todos os momentos, os bons e os ruins, eram guardados na memória e passados adiante pela palavra oral e, em alguns casos, pela escrita.
Pensei nisso essa semana, quando precisei liberar espaço no meu celular.
A família da série, ou qualquer família dos séculos 17, 18 e 19, não tinha duas coisas que a gente quase nunca larga hoje: um lugar pra guardar a memória fora da própria cabeça, e alguém observando o que estava sendo guardado. Não tinham storage externo nem audiência.
Essas duas ausências não são só um detalhe de época, tipo carroça e vela. Elas mexem em como a memória é formada de verdade, e também no que acontece com o sistema nervoso quando tem alguém observando o que está sendo guardado, mesmo que essa audiência seja só imaginária.
A memória que vira músculo
Essa semana resolvi finalmente deletar coisas do meu celular, um iPhone 11. Aqui nos Estados Unidos, um celular de sete anos é uma relíquia arqueológica. Bom, só de mídia, eu tinha vinte mil itens, entre fotos, vídeos e prints, a maioria deles de viagens pelo país e do Chico. Mais fotos no WhatsApp, podcasts, e-books, e outras coisas. Eu tinha usado 254 GB dos 256 totais (tirei o print abaixo depois de começar a faxina). Eu já não conseguia fazer updates, e alguns apps já nem funcionavam.
Doeu um pouco, mas passei tudo pra nuvem em algumas horas, e a primeira coisa que me veio à mente foi: espero que esteja mesmo tudo salvo lá.

Depois, pensei: quantos desses 20 mil itens eu realmente vou olhar de novo?
Henry Roediger e Jeffrey Karpicke, pesquisadores da Washington University em St. Louis, descobriram em 2006 algo que parece contraintuitivo. Tentar lembrar de uma informação de cabeça, sem checar nada, fortalece a memória muito mais do que só reler ou rever aquilo várias vezes. Numa das versões do experimento, quem só releu um texto lembrava 40% dele uma semana depois. Quem tentou recuperar o conteúdo de memória, sem consultar nada, lembrava 61%. O esforço de lembrar algo de cabeça, de puxar aquela informação do cérebro é o que grava.
Os pesquisadores chamam isso de retrieval practice (a prática de lembrar). E é meio o contrário do que a gente costuma fazer, que é fotografar e nunca mais abrir aquela pasta. A foto tira a necessidade de correr atrás daquele momento na memória depois. Só que é esse correr atrás, sem ajuda nenhuma, que fortalece a consolidação2.
A gente faz muito isso também quando quer saber de algo e, em vez de pensar por um minuto, corre pro Google, ou pra IA, pra descobrir a resposta imediatamente. Eu tento fazer menos isso, mas não é fácil, pois é tentador não precisar pensar e ter a resposta ali, literalmente na ponta dos dedos!
Yaakov Stern, da Columbia University, estuda algo parecido do ponto de vista do envelhecimento cerebral, um conceito chamado reserva cognitiva3. Ainda há debate na área sobre o que é causa e o que é efeito, mas as pessoas que usam o cérebro mais ativamente, revisitando e praticando, tendem a ter maior resistência ao declínio que vem com a idade.
É o “use ou perca” aplicado ao cérebro, do mesmo jeito que a gente já aceita pra músculo sem nem pestanejar. A memória funciona parecido, só que a gente esquece disso porque ela não dói no dia seguinte, diferente de um braço destreinado.
As famílias do passado não tinham escolha. Cada memória importante precisava ser contada de novo, e de novo, pra sobreviver ao tempo, e, décadas depois, algumas virariam livros. A Laura Ingalls Wilder passou a vida inteira fazendo esse exercício, sem nunca ter ouvido falar em "retrieval practice”.
É a tal subtração antes da adição, um princípio que eu repito bastante por aqui. Antes de perguntar qual é o aplicativo que vai organizar melhor as suas fotos, ou qual serviço de nuvem é mais confiável, pense em perguntar, o que aconteceria se, de vez em quando, a gente tentasse lembrar antes de checar?
Eu não vou parar de tirar fotos de viagem, ou do Chico. Mas essa semana, antes de abrir a pasta de fotos, testei algo diferente e, em vez de tentar lembrar de uma imagem vaga, tentei reconstruir aquele momento. Lembrar do cheiro do lugar, dos sons ao redor e, talvez, de alguma frase que alguém tenha dito.
A nossa memória funciona mais como um conjunto de pistas espalhadas do que como um arquivo único, e quanto mais dessas pistas você ativa, mais fácil fica recuperar o resto. Nas vezes em que eu tentei, às vezes vinha tudo de forma quase automática. Mas, outras vezes, ficava claro que eu só tinha guardado a foto, e não a experiência. A imagem estava lá, mas o momento não estava.
Só que treinar a memória assim não resolve tudo. E teve uma parte que só fui entender no meio da limpeza dos arquivos.
Quando ninguém está vendo
Entre os 20 mil arquivos, havia uma quantidade enorme de fotos e prints que eu guardei e favoritei, com a intenção de usar em algum artigo do Substack ou postar em alguma rede social, algum dia.
Mas nunca usei a maioria. Nunca postei nada, nem mostrei pra ninguém. Tudo ficou ali guardado, esperando uma plateia que eu mesma inventei, que nunca chegou a existir. Um arquivo morto perfeito, se você quiser uma versão mais dramática de descrever uma pasta chamada “ideias pra usar depois” que ninguém nunca abriu.
Kristin Diehl, pesquisadora da University of Southern California, tem uma linha de pesquisa sobre isso ao lado de Gal Zauberman e Alixandra Barasch. Na maioria das situações, fotografar aumenta o prazer da experiência, porque intensifica o engajamento com o que está acontecendo naquela hora. O problema aparece quando a foto é tirada já pensando em compartilhar, quando a câmera vira desculpa pra já viver pensando em quem vai ver aquilo depois. Isso ativa o que essa pesquisa chamou de preocupação com a autoapresentação, e essa preocupação reduz o prazer com a própria experiência em vez de aumentar4.
Sally Dickerson e Margaret Kemeny reuniram décadas de pesquisa sobre estresse e mostraram algo parecido do lado hormonal. Algo que eleva muito o cortisol são situações de ameaça de avaliação social. A pessoa sente que está sendo observada, e até julgada por alguém, e isso pode estressar muito mais do que o esforço físico ou um perigo real. O corpo reage a uma plateia real, mesmo quando essa plateia não existe.
É a mesma lógica por trás do nervo vago, que eu mencionei um pouco no artigo O nervo vago e o cervo no quintal. Existe um estado do sistema nervoso que só acontece quando não tem ameaça de avaliação nenhuma rondando, nem real, nem imaginada. A família da pradaria vivia nesse estado quase o tempo inteiro. Regular o próprio nervo vago seria um conceito moderno demais pra 1870. E com quase nenhuma plateia, simplesmente não havia muito o que regular.
Os meus arquivos guardados “pra usar depois” fizeram o oposto disso. Eu tirei aquela foto, ou fiz aquele print, já pensando numa audiência hipotética. E aí nunca usei, nunca mostrei, então nem o prazer real de compartilhar aconteceu, nem o alívio de não ter audiência nenhuma. A imagem ficou parada no meio do caminho, no pior dos dois mundos, por anos, dentro de um celular.
Continue fotografando e compartilhando os momentos. Mas preste atenção pra não fazer isso no piloto automático. Aquela audiência imaginária já muda o que a gente sente antes mesmo da nossa decisão de postar ou não.
Três coisas simples pra tentar
Nenhuma das três exige parar de fotografar nem comprar nada. Apenas saber onde está a nossa atenção enquanto algo assim acontece.
Antes de abrir uma foto antiga só pra ver, tente reconstruir o momento de cabeça, ou até escreva em poucas frases onde você estava, quem mais estava ali e o que fez aquele momento diferente de qualquer outro. Escrever ou dizer em voz alta funciona melhor do que simplesmente lembrar em silêncio. É desconfortável no início, mas também é o único jeito de treinar a memória de verdade. É esse tipo de esforço que mantém a reserva cognitiva ativa ao longo dos anos.
Se quiser fotografar algo, tire a foto, claro. Mas espere um pouco antes de abrir um app e compartilhar. Fique no momento primeiro, e depois decida se quer uma plateia ou não. Isso tira o corpo do estado de alerta social por alguns minutos a mais por dia.
Da próxima vez, em vez de só fotografar, conte a história pra alguém. Narrar te obriga a organizar a lembrança em palavras pra outra pessoa entender, em vez de só puxar ela de relance. Contar em voz alta é uma versão ainda mais completa disso.
De volta à pradaria
Eu meio que sei como a história daquela família termina. Eu cresci sabendo dela, pelos livros e pela série antiga que assisti quando criança (sim, sou daquele tempo). Já estou no fim da nova versão e, mesmo sabendo quais são as partes mais importantes do que vem a seguir, vai ser um prazer continuar assistindo.
A graça está em reencontrar a história de novo, prestando atenção em coisas que passaram batido da primeira vez. Usando o exemplo que dei aqui, seria tentar lembrar das diferenças entre a série antiga e a nova, ou dos livros, caso você os tenha lido.
Isso pede atenção ativa, bem diferente de deixar a série passar de fundo, e é esse tipo de engajamento que a pesquisa do Yaakov Stern sobre reserva cognitiva aponta como um dos fatores que ajudam a explicar por que algumas pessoas chegam aos 70 ou 80 anos com a cabeça afiada, e outras não.
Quando você achar que algo vale a pena guardar, dê uma chance para a sua própria mente primeiro, antes do celular entrar em cena.
Os cinco primeiros episódios de Os Pioneiros estão disponíveis na seção sob demanda da Pluto TV Brasil. A Casa na Pradaria tem a temporada 1 disponível na Netflix Brasil.
Artigo sobre tirar fotos para lembrar.
Comece gratuitamente e receba quatro artigos por mês, além de ferramentas exclusivas para assinantes. Se gostar, a assinatura paga desbloqueia o restante.



