Este artigo apresenta uma comparação entre o mundo da inteligência artificial e o do biohacking. Eu sinto a mesma energia em ambos os mundos. Esse paralelo não é uma crítica, longe disso. É só um mapa para nos orientar nesses territórios.
No dia 27 de março (semana passada), passei quase o dia inteiro assistindo ao primeiro AI virtual summit do Substack, organizado pela Cozora1, uma plataforma na qual mais de 30 experts ensinam, semanalmente, como implementar IA na prática. Em algum momento, sem perceber exatamente quando, parei de ouvir sobre inteligência artificial e comecei a ouvir sobre suplementos e rotinas.
Não literalmente, mas a sensação era familiar. A maioria dos speakers era muito inteligente, com muito a ensinar, e com projetos úteis e interessantes. E ao mesmo tempo, havia uma estrutura emocional e comercial que eu reconhecia de outro contexto. Um que venho observando há mais de dezessete anos.
Quando eu podia, eu olhava a publicação de algum convidado que eu ainda não conhecia (pois sigo ou assino as publicações de quase todos). No meio de um conteúdo teórico e prático maravilhoso, vi um ou dois que me fizeram lembrar do porquê de eu ter abandonado as outras redes sociais e de ter escolhido o Substack para hospedar meus textos.
E eu não estou criticando essa minoria de profissionais de IA e de escritores de qualquer área. Cada um sabe como melhor construir o seu negócio e a sua publicação. Mas falando especificamente do formato, e não do conteúdo, eu vi alguns posts com muitos links de afiliados, outros com um botão para assinar ou comprar um curso a cada dois parágrafos, e publicações com grande parte do conteúdo reservada para assinantes pagos (e tudo bem, se você for uma referência consolidada na sua área).
Dito isso, eu sei que o modelo do Substack gera um tipo específico de pressão. Se a sua renda depende de converter leitores gratuitos em assinantes pagos, a tentação de criar um senso artificial de pressa é estrutural, e não pessoal. Algumas pessoas resistem a isso melhor do que outras, e eu procuro me lembrar disso antes de julgar.
Mas foi nesses momentos, ao ler algumas publicações com mais atenção, que notei o paralelismo entre esses dois universos em que estou super envolvida: o biohacking, desde 2009, e a IA, desde 2023.
Faça mais, e mais rápido
Quando eu entrei no mundo do biohacking, a promessa era sedutora: você pode hackear o seu corpo e ser o dono da sua biologia. Se o médico só te der um remédio e não perguntar como você dorme, come ou se movimenta, algo está faltando, e talvez seja hora de tomar as rédeas da sua saúde. O biohacking tem estratégias e ferramentas pra isso.
Mas naquele tempo e hoje, o problema não são as ferramentas em si. A maioria funciona muito bem. O problema é a arquitetura ao redor delas. Aquela sensação de urgência, a promessa de que existe sempre mais uma coisa a fazer, e a comunidade paga onde o conteúdo “de verdade” fica.
Eu aprendi a reconhecer essa arquitetura. E ela tem uma forma bastante consistente, que podemos reconhecer em várias áreas (IA incluída). Eu notei, aos poucos, que estava reagindo ao marketing (estruturado pra que isso acontecesse) e não a uma necessidade real. Isso aconteceu em 2009 e ainda acontece em 2026. Agora eu reconheço as pequenas armadilhas, mas esse fenômeno não é fácil de se perceber, pois o marketing é esperto e evoluiu junto com a nossa desconfiança. Mas essa foi a principal razão para eu começar essa publicação.
Alguns influencers e health gurus da indústria fitness te dizem para acordar às 5 da manhã, ir pro banho de gelo, correr 5 quilômetros, meditar por 30 minutos e tomar um smoothie com 10 coisas dentro. Depois, tem os 20 suplementos por dia. Te fazem acreditar que se você não fizer isso, não vai viver até os 120 anos. E que as suas dores vão, milagrosamente, desaparecer. Não vão. E recomendam tudo isso sem saber nada sobre a sua vida nem sobre o que você passou antes de começar a seguir aquele perfil.
Aprenda a reconhecer os sinais
Eu via muito isso nas diversas redes sociais e já vejo isso chegando ao Substack. No início, entre 2018 e 2023, o Substack era como um refúgio para os escritores sérios que não queriam estar nas redes sociais. Aos poucos, quem escrevia no Medium ou já tinha blogs passou a migrar pra cá, atraído pelo modelo estratégico e por recursos mais interessantes.
Hoje a plataforma cresceu e já está se tornando mais uma rede social, graças a Notes, Lives, vídeos curtos, e outras funcionalidades. O campo da saúde e longevidade (para ficar só na minha área) entrou com tudo no Substack, e algumas pessoas nesse espaço monetizam a confusão, a urgência e as promessas sem contexto.
Quanto mais complexas forem as ideias, mais você precisa de alguém que te guie. Quanto mais você sentir que está ficando pra trás, mais provável será que compre alguma coisa. E, com certeza, você vai encontrar aquilo e muito mais na loja online da pessoa.
Os sinais são reconhecíveis depois que você os vê uma vez:
A escassez fabricada: “A janela está fechando.” “Quem não fizer isso agora vai pagar o preço mais tarde.” “Cada dia que você espera é um dia de atraso.”
O problema que só eles resolvem: o protocolo proprietário, a metodologia exclusiva. Aquela combinação específica de suplementos que só funciona na sequência certa e que, convenientemente, está à venda no link da bio ou no artigo pago.
A promessa de resultado sem contexto: “Perdi 15 kg em 60 dias. Tenho 60 anos, mas corpinho de 40 e rostinho de 30; aumentei meu QI em 15 pontos com nootrópicos. Reverti a minha idade biológica em 10 anos.” Geralmente, não mencionam o que mais mudou na vida deles, não apresentam evidências científicas, nem o que aquilo custou (em tempo e dinheiro), nem o que deu errado no meio do caminho. Eu mesma já usei a frase “a minha idade biológica é 18 anos menor que a cronológica”. Mas eu explico o como e tudo o mais.
→ E o mais sutil: a sensação de que você ainda não está fazendo o suficiente. Que o seu sono poderia ser melhor, a sua alimentação mais precisa, e o seu treino mais otimizado.
Essa sensação é o principal produto que eles vendem, porque ela nunca acaba.
Eu deixei de seguir muita gente quando percebi essa manipulação. Não comentei nada na conta da pessoa; não falei mal de ninguém em lugar nenhum. Apenas me retirei do ambiente, como se eles morassem no mesmo prédio que eu, e eu decidi me mudar para outro prédio. Num bairro bem distante, de preferência. De vez em quando, como uma mosquinha na parede, eu dou uma espiada pra ver se algo mudou. Não, nada mudou.
Eu sei o quanto tudo isso custa porque paguei esse preço. Não só em dinheiro, mas também no tempo que gastei seguindo protocolos que não foram feitos para mim, na ansiedade de me sentir perpetuamente atrasada e nos meses que levei para perceber que a impaciência que eu sentia havia sido fabricada por alguém; ela não era minha.
Claro que se eu quiser comprar um produto, vou usar o link de desconto de alguém. Não tem por que eu não ajudar um expert que eu admire. Mas escolha bem: veja se a pessoa merece e o quanto ela é honesta nos seus oferecimentos. E não caia no conto da urgência. O corpo humano existe há centenas de milhares de anos. Ele pode esperar você pensar com calma.
Alguns escrevem bem e têm muito conhecimento, mas não conseguem fazer um texto ou um vídeo sem mencionar patrocinadores ou a lojinha online que está na bio. Desses, eu tiro o que tem valor e ignoro o resto.
Quando você aprende a separar o joio do trigo, vai ver que existe muito conteúdo sério nessa área. E em todas as áreas. A diferença está no comportamento consistente das pessoas que realmente sabem do que estão falando. Elas mostram o que não funciona para elas, não só o que funciona. Falam dos limites do que se sabe, admitem quando estão erradas, e não vendem urgência. E quando recomendam algo, deixam claro o porquê e para quem aquilo pode não funcionar.
A ciência que elas citam tem nome e sobrenome: pesquisadora X, estudo publicado em Y, resultado Z em população W. Não “estudos mostram” flutuando no ar.
Voltando ao AI Summit
O paralelo que eu vi no summit não é uma crítica ao evento. Foi bem feito, com speakers genuínos e conversas que valeram muito a pena. Teve substância, e só tende a melhorar.
O que eu reconheci foi algo maior: a mesma dinâmica que existe no universo biohacker já se formou no universo de IA do Substack, do LinkedIn e do YouTube. As mesmas promessas de otimização, o mesmo vocabulário de urgência, a mesma arquitetura de guru. A comunidade paga (o que é ótimo, se o conteúdo valer a pena; eu mesma sou parte de várias), a metodologia proprietária e a sensação de que se você não adotar aquilo hoje mesmo, vai ficar para trás. E no mundo da IA, a urgência é bem mais fácil de perceber e compreender, pois a cada mês surge uma ferramenta melhor, e a que você comprou ou aprendeu ontem já ficou pra trás.
O Global Wellness Summit observou recentemente uma reação crescente contra o excesso de otimização no setor de wellness.2 Isso veio de uma fadiga com os protocolos intermináveis e da percepção de que mais ferramentas não significam mais saúde. O universo da IA está no início dessa mesma curva.
No summit do Substack, as vozes que mais me interessaram foram as que disseram: “use com cuidado”, “desconfie das respostas e revise sempre” e “pergunte se você realmente precisa disso aqui.” Alguns capturaram a minha atenção quando disseram que a pergunta mais importante a se fazer sobre qualquer ferramenta de IA não é “o que ela consegue fazer?”, mas sim “o que, de fato, estou tentando resolver?”.
Essa é uma pergunta típica de biohacker, que eu reconheci imediatamente. São as mesmas vozes que eu sigo na minha área. As que dizem que o sol de manhã e o sono de qualidade podem resolver 80% dos problemas, enquanto o resto do palco vende o suplemento do mês.
Eu nem sempre soube o que sei hoje, e já comprei cursos que eram só entradas pra um curso ou programa bem mais caro depois, e alguns suplementos e equipamentos que não me ajudaram em nada. Agora, antes de adotar qualquer coisa nova, seja um suplemento, um wearable, um prompt ou um agente de IA, eu me pergunto: isso resolve um problema real que eu tenho ou estou reagindo a uma sensação de urgência que alguém criou para mim?
E por que isso importa aqui, em uma newsletter sobre saúde e longevidade? Porque é muito provável que o leitor, a quem se oferece um sistema de produtividade com IA na segunda-feira, também receba uma oferta de um suplemento de longevidade na quarta-feira. A arquitetura é a mesma, o vocabulário de urgência é o mesmo e, assim que você começa a reconhecer esse padrão em um lugar, passa a notá-lo, de forma sutil, em todos os outros também.
A resposta não é sempre óbvia. Mas o ato de perguntar já muda toda a equação.




